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Especial Apocalipse já
Já começou a catástrofe causada
pelo aquecimento global, que se esperava para daqui a trinta
ou quarenta anos. A ciência não sabe como reverter
seus efeitos. A saída para a geração que quase destruiu a
espaçonave Terra é adaptar-se a furacões, secas, inundações e
incêndios florestais
 Jaime
Klintowitz
World Press Photo/AE
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URSOS
CANIBAIS O aquecimento
global fez diminuir em 20% a calota polar ártica nas últimas
três décadas, reduzindo o território de caça dos
ursos-polares. Muitos deles ficaram sem alimento. A mudança
radical de seu habitat provocada pelo homem está custando caro
aos ursos. Recentemente, no Mar de Beaufort, no Alasca,
pesquisadores americanos que há 24 anos estudam a região
identificaram um caso inédito de canibalismo na espécie: duas
fêmeas, um macho jovem e um filhote foram atacados e comidos
por um grupo de machos. Estimativas apontam que os
ursos-polares podem desaparecer em vinte anos.
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A história do relacionamento entre o
homem e a natureza é marcada pelo livro Silent Spring
(Primavera Silenciosa), de 1962. Nessa obra seminal, a bióloga
americana Rachel Carson alertou pela primeira vez para os perigos do
uso indiscriminado de pesticidas, até então encarados pela maioria
das pessoas como uma bênção da ciência para solucionar o problema da
fome. A descrição dramática feita por ela das primaveras "sem cantos
de pássaros" sacudiu a consciência das pessoas em escala mundial e
serviu de ponto de partida para o moderno movimento ambientalista. A
nova consciência ecológica abriu caminho para leis de controle dos
pesticidas e para acordos internacionais sobre o meio ambiente, como
o que baniu a produção de químicos responsáveis pela destruição da
camada de ozônio. Quase cinqüenta anos depois, o entendimento sobre
o fato de que "somos parte do equilíbrio natural" – como definiu a
bióloga – pode nos ser útil diante de uma catástrofe global iminente
provocada pelo aquecimento global. Como uma praga apocalíptica, as
mudanças climáticas já semeiam furacões, incêndios florestais,
enchentes e secas com tal intensidade que ninguém mais pode se
considerar a salvo de ser diretamente atingido por suas
conseqüências.
Bobby Haas/National
Geographic
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SOLO QUE ARDE Nas últimas três décadas, o total de terras
atingidas por secas severas dobrou em decorrência do
aquecimento global. Na China, segundo o mais recente estudo da
ONU, todos os anos 10 000 quilômetros quadrados em média – o
equivalente a metade do estado de Sergipe – se transformam em
deserto. Na Etiópia (foto), secas anuais condenam 6
milhões de pessoas à fome. Na Turquia, 160 000 quilômetros
quadrados de terras cultiváveis sofrem com a desertificação
gradativa e a conseqüente erosão do solo.
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O primeiro estudo rigoroso sobre o
aquecimento global foi realizado por cientistas da Academia Nacional
de Ciências dos Estados Unidos, em 1979. De lá para cá,
ambientalistas e governos debateram, quase sempre aos berros,
questões que lhes pareciam básicas. Primeiro, o grau de
responsabilidade da ação humana. Segundo, se os efeitos das mudanças
no clima da Terra são iminentes. A terceira questão é o que pode ser
feito para impedir que o problema se agrave. O debate, nos termos
descritos acima, está morto e enterrado. As pesquisas convergiram,
além do benefício da dúvida, para a constatação de que nenhuma
influência da natureza poderia explicar aumento tão repentino da
temperatura planetária. Até os mais céticos comungam agora da idéia
apavorante de que a crise ambiental é real e seus efeitos,
imediatos. O que divide os especialistas não é mais se o aquecimento
global se abaterá sobre a natureza daqui a vinte ou trinta anos, mas
como se pode escapar da armadilha que criamos para nós mesmos nesta
esfera azul, pálida e frágil, que ocupa a terceira órbita em torno
do Sol – a única, em todo o sistema, que fornece luz e calor nas
proporções corretas para a manutenção da vida baseada no carbono, ou
seja, nós, os bichos e as plantas.
Daniel
Betra/Greenpeace/Reuters
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A BAIXA DO RIO No Oceano Atlântico, a temperatura da água está
meio grau mais alta do que há vinte anos. Esse calor a mais
altera o padrão de circulação dos ventos, provocando
deslocamento de massas de ar seco para a região amazônica. A
mudança impede a formação de nuvens, causando a escassez de
chuvas. Em 2005, o fenômeno provocou a maior seca dos últimos
quarenta anos na Amazônia. O Rio Amazonas baixou 2 metros
(foto). Mais de 35 municípios do Amazonas e do Acre
ficaram isolados, sem comida, água, luz ou transporte. A
grande seca pode se repetir a qualquer momento.
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A VIDA EM UMA TERRA MAIS QUENTE
O que fazer para sair dessa crise é
bem mais controverso, apesar de ninguém ignorar que, para evitar que
a situação piore, é preciso parar de bombear na atmosfera dióxido de
carbono, metano e óxido nitroso. Esses gases resultantes da
atividade humana formam uma espécie de cobertor em torno do planeta,
impedindo que a radiação solar, refletida pela superfície em forma
de calor, retorne ao espaço. É o chamado efeito estufa, e a ele se
atribui a responsabilidade pelo aumento da temperatura global. Há um
acordo internacional que estabelece metas de redução, o Tratado de
Kioto, assinado por 163 países e rejeitado pelos Estados Unidos,
precisamente o país que emite 25% de todo o gás carbônico. É mais
uma razão para não esperar grande coisa de documento. "Kioto tem um
grande significado simbólico, mas suas metas são muito modestas",
pondera o americano Jonathan Overpeck, da Universidade do Arizona.
No protocolo, que entrou em vigor no ano passado, os países se
comprometeram a reduzir em 5% as emissões de CO2 em
relação aos níveis de 1990. "Mesmo que todos os países
interrompessem imediatamente a liberação de gases do efeito estufa",
disse a VEJA o americano John Reilly, diretor do programa de
mudanças climáticas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts
(MIT), "a atmosfera já está de tal forma impregnada que a
temperatura média do globo ainda subiria por mais 1 000 anos e o
nível do mar continuaria a se elevar por mais 2.000."
Na realidade, as emissões de gases
estão subindo e as previsões são de mais calor. Como o aquecimento
global já é inevitável, cientistas e ambientalistas têm colocado uma
nova questão na linha de frente da batalha das mudanças climáticas:
como se preparar e se adaptar à vida em um planeta bem mais quente.
O tema central desta reportagem não é a previsão de mau tempo no
futuro, ainda que este seja um de seus destaques. O que se lerá aqui
diz respeito, sobretudo, ao impacto do aquecimento global que já se
faz sentir no mundo atual e como teremos de aprender a viver com
isso. A primeira coisa que precisa ser aprendida é como conviver com
a fúria da natureza injuriada. De acordo com um levantamento da
Organização das Nações Unidas, em 2005 ocorreram 360 desastres
naturais, dos quais 259 diretamente relacionados ao aquecimento
global. O aumento foi de 20% em relação ao ano anterior. No início
do século XIX, de acordo com alguns historiadores, dificilmente
havia mais de meia dúzia de eventos de grandes dimensões em um ano.
No total, foram 168 inundações, 69 tornados e furacões e 22 secas
que transformaram a vida de 154 milhões de pessoas.
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Fotos Image.net
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O SUMIÇO DO GELO
O norte dos Andes é a região de maior
concentração de glaciares nos trópicos. Só no Peru existem 3
044 deles. Até a década de 80, essas geleiras incrustadas no
interior das cordilheiras, remanescentes da era glacial,
permaneciam praticamente inalteradas. Um estudo recente da ONU
concluiu que houve uma drástica redução das áreas dos
glaciares peruanos nos últimos quinze anos por causa das
mudanças climáticas. Nas fotos, tiradas no mesmo mês de anos
diferentes, a redução de um glaciar da Cordilheira Branca.
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AS SEIS PRAGAS DO AQUECIMENTO
Seis mudanças de grandes proporções
causadas pelo aquecimento global estão relacionadas a seguir. Todas
estão ocorrendo agora, afetam não apenas o clima mas perturbam a
vida das pessoas e têm como única previsão futura o agravamento da
situação. É assustador observar que eventos assim, de dimensões
ciclônicas, sejam o resultado do aumento de apenas 1 grau na
temperatura média da Terra, uma fração do calor previsto para as
próximas décadas.
•
O Ártico está derretendo – A cobertura de gelo da
região no verão diminui ao ritmo constante de 8% ao ano há três
décadas. No ano passado, a camada de gelo foi 20% menor em relação à
de 1979, uma redução de 1,3 milhão de quilômetros quadrados, o
equivalente à soma dos territórios da França, da Alemanha e do Reino
Unido.
• Os
furacões estão mais fortes – Devido ao aquecimento das águas, a
ocorrência de furacões das categorias 4 e 5 – os mais intensos da
escala – dobrou nos últimos 35 anos. O furacão Katrina, que destruiu
Nova Orleans, é uma amostra dessa nova realidade.
• O
Brasil na rota dos ciclones – Até então a salvo desse tipo de
tormenta, o litoral sul do Brasil foi varrido por um forte ciclone
em 2004. De lá para cá, a chegada à costa de outras tempestades
similares, ainda que de menor intensidade, mostra que o problema
veio para ficar.
• O
nível do mar subiu – A elevação desde o início do século passado
está entre 8 e 20 centímetros. Em certas áreas litorâneas, como
algumas ilhas do Pacífico, isso significou um avanço de 100 metros
na maré alta. Um estudo da ONU estima que o nível das águas subirá 1
metro até o fim deste século. Cidades à beira-mar, como o Recife,
precisarão ser protegidas por diques.
•
Os desertos avançam – O total de áreas atingidas
por secas dobrou em trinta anos. Uma quarto da superfície do planeta
é agora de desertos. Só na China, as áreas desérticas avançam 10.000
quilômetros quadrados por ano, o equivalente ao território do
Líbano.
• Já
se contam os mortos – A Organização das Nações Unidas estima que
150.000 pessoas morrem anualmente por causa de secas, inundações e
outros fatores relacionados diretamente ao aquecimento global. Em
2030, o número dobrará.
Fotos National Snow And Ice Data
Center (NSIDC)
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DESASTRE NO
ALASCA No Alasca, onde as
temperaturas médias do inverno aumentaram 4 graus nos últimos
cinqüenta anos, a paisagem se modificou por completo. A camada
de gelo que cobre o mar desapareceu em algumas regiões (nas
fotos, o glaciar Muir com a diferença de 63 anos). No
passado, 10 milhões de quilômetros quadrados do Oceano Ártico
permaneciam congelados durante o verão. Hoje, segundo estudos
do Arctic Climate Impact Assessment, a área congelada é pelo
menos 30% menor. |
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HOJE |
O PLANETA É GIGANTE, O EQUILÍBRIO É
FRÁGIL
Em escala geológica, a temperatura
da Terra sempre funcionou como um relógio pontual. A cada 100.000
anos, mudanças sutis na órbita do planeta e na sua inclinação em
relação ao Sol provocam uma queda na temperatura e fazem com que as
massas de gelo dos pólos aumentem de tamanho e se aproximem da linha
do Equador. São as glaciações. A última terminou há 10.000 anos. Foi
nessa pequena janela geológica entre o fim da última era glacial e
hoje, marcada por temperaturas amenas, que a humanidade desenvolveu
a agricultura, construiu as cidades e viajou à Lua. Nos últimos 120
anos, com o relógio fora de ordem devido à atividade humana, a
temperatura média do planeta aumentou 1 grau. Pode parecer pouco,
mas mudanças climáticas dessa magnitude têm conseqüências drásticas.
Há 12.000 anos, quando a temperatura média era apenas 3 graus mais
baixa que a atual, uma camada de gelo cobria a Europa até a França.
Uma vez alterado, o mecanismo natural do clima, dizem os cientistas,
não é fácil de ser reajustado. "Ao quebrar o equilíbrio climático, a
humanidade mexeu com processos que não conhece por completo e que
estão fora do alcance e da capacidade da mais avançada tecnologia",
analisa o geofísico Paulo Eduardo Artaxo, da Universidade de São
Paulo.
Os gases responsáveis pelo
aquecimento excessivo são produzidos pelos combustíveis fósseis
usados nos carros, nas indústrias e nas termelétricas e pelas
queimadas nas florestas. Processos naturais, como a decomposição da
matéria orgânica e as erupções vulcânicas, produzem dez vezes mais
gases que o homem. Por eras, garantiram sozinhos a manutenção do
efeito estufa, sem o qual a vida não seria possível na Terra. Para
se manter em equilíbrio climático, o planeta precisa receber a mesma
quantidade de energia que envia de volta para o espaço. Se ocorrer
desequilíbrio por algum motivo, o globo esquenta ou esfria até a
temperatura atingir, mais uma vez, a medida exata para a troca
correta de calor. O equilíbrio natural foi rompido pela revolução
industrial. Desde o século XIX, as concentrações de dióxido de
carbono no ar aumentaram 30%, as de metano dobraram e as de óxido
nitroso subiram 15%. A última vez em que os níveis de gases do
efeito estufa estiveram tão altos quanto agora foi há 3,5 milhões de
anos. O ano passado foi o mais quente desde que as temperaturas
começaram a ser registradas, em 1866. Pelo que se sabe, o planeta
está mais quente do que já foi em qualquer momento dos últimos dois
milênios. Se mantiver o ritmo atual, no fim do século a temperatura
média será a mais elevada dos últimos 2 milhões de anos.
EFEITO IRREVERSÍVEL?
Sabe-se que o próximo relatório do
Painel Internacional de Mudança Climática (IPCC,) das Nações Unidas,
a mais respeitada autoridade em aquecimento global, a ser divulgado
em 2007, depois de revisto pelos cientistas e pelos órgãos
governamentais, deve estimar um aumento na temperatura média do
planeta entre 2 e 4,5 graus até 2050. "Dois graus é uma barreira
psicológica para os cientistas", diz Marc Lucotte, diretor do
Instituto de Ciências do Ambiente da Universidade de Quebec, no
Canadá. Acima desse patamar, a probabilidade de ocorrerem tragédias
muito maiores que as observadas em anos recentes, como inundações,
secas, ondas de calor, furacões e epidemias, aumenta muito. "Aí será
tarde demais para tentar uma volta atrás", afirma o ambientalista
Carlos Rittl, coordenador da campanha de clima do Greenpeace no
Brasil. Na pior das hipóteses, um aumento de 4 graus iria igualar as
temperaturas do Ártico aos patamares registrados há 130.000 anos,
segundo um estudo feito com base em análises geológicas por
cientistas da Universidade do Arizona e do Centro Nacional de
Pesquisas Atmosféricas dos Estados Unidos. Nesse passado distante, o
nível dos oceanos era 6 metros mais alto e a camada de gelo do
Ártico praticamente havia desaparecido. "Isso não significa que o
nível do oceano subirá imediatamente a 6 metros quando o termômetro
registrar um aumento de 4 graus na temperatura", disse a VEJA
Jonathan Overpeck, um dos coordenadores do estudo. "Mas a partir de
então o processo de derretimento dos glaciares será rápido e
irreversível."
Irreversível? Muitos cientistas
começam a acreditar que as mudanças climáticas chegaram a um ponto
de não-retorno. Esse fenômeno leva agora o nome de tipping
point, termo em inglês popularizado como título de livro por
Malcolm Gladwell, escritor badalado de Nova York. Em ciência,
significa o momento em que a dinâmica interna passa a encarregar-se
de uma mudança iniciada previamente por forças externas. Em vários
aspectos já cruzamos o limite sem volta. A limpeza da atmosfera é
tarefa para gerações. O degelo nas regiões polares está além do
tipping point. Obviamente, como conseqüência do volume de
água do degelo, os oceanos continuarão a subir. O aquecimento dos
mares alimentará novos furacões, aumentando a capacidade destrutiva
desses fenômenos meteorológicos. "A violência desses desastres
naturais só pode ser atenuada se houver uma redução na temperatura
da água, o que parece improvável", afirma o biólogo americano Thomas
Lovejoy, presidente do Centro Heinz para a Ciência, em Washington.
Recentemente, Lovejoy constatou um novo efeito desastroso do excesso
de gás carbônico: os mares estão ficando mais ácidos. As alterações
no PH marítimo levam à redução do número de moluscos e plânctons,
que estão na base da alimentação dos ecossistemas marítimos, e
ameaçam aniquilar os recifes de corais. Obviamente, não há muito que
se possa fazer para salvar a vida marinha.
Tom Ondway/AP
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AGONIA SUBMARINA O excesso de gás carbônico na atmosfera está
tornando os oceanos mais ácidos. Isso enfraquece os corais,
viveiros do mar, e os plânctons, base da cadeia alimentar
subaquática. |
UM PACTO GLOBAL PELA SALVAÇÃO
O derretimento dos glaciares,
concordam os especialistas, já atingiu dinâmica própria, impossível
de ser freada. O impacto do aquecimento global pode ser percebido em
toda parte, mas não há nada mais explícito que a redução das
geleiras e do Ártico. Praticamente todos os glaciares da Terra estão
encolhendo. Dos 150 que existiam no Glacier National Park, nos
Estados Unidos, em 1880, restam cinqüenta, e a estimativa é que o
último desaparecerá até 2030. O mesmo se vê nos Andes, na Patagônia
e nos Alpes. Blocos de gelo do tamanho de pequenos países têm se
desprendido da Antártica e boiado no Atlântico Sul até se dissolver
no mar. Nos últimos cinqüenta anos, o volume de gelo no Ártico caiu
quase à metade e, nessa velocidade, terá desaparecido totalmente no
verão de 2080. Segundo um estudo do meteorologista americano Eric
Rignot, da Nasa, o ritmo do derretimento da cobertura de gelo da
Groenlândia dobrou nos últimos dez anos. Segundo o IPCC, o nível dos
mares subiu entre 10 e 20 centímetros no último século. O aumento
decorre da combinação do aquecimento das águas – e sua conseqüente
expansão – com o derretimento do gelo nos pólos e nas montanhas. A
estimativa é que suba mais 1 metro até o fim do século. Caso a
camada de gelo da Groenlândia, que chega a 3,2 quilômetros de
espessura em alguns pontos, derreta por completo, o nível do mar
atingirá 7 metros. Cidades como Recife e Parati precisariam de
diques de 8 metros de altura para sobreviver.
O cenário é adverso, mas não
justifica a inércia. Os recursos para reduzir os efeitos colaterais
do aquecimento são conhecidos. Basicamente, é necessário encontrar
um uso mais eficiente de energia e diminuir a emissão de gases que
provocam o efeito estufa. Cerca de 75% desses gases vêm do
combustível fóssil utilizado na produção de energia, nas indústrias
e nos automóveis. Outros 25% são provenientes das queimadas – talvez
o item mais fácil de consertar. Há preocupação real entre os
governos. Vários países estão reconsiderando a energia nuclear, que
hoje provê 16% do total. Só a China quer construir 32 usinas até
2020. Os Estados Unidos estão interessados em produzir combustível
para carros usando milho, da mesma maneira que o Brasil faz com a
cana. Mas nenhum país vai muito longe porque as alternativas custam
caro e os riscos para a economia são altos. Campanhas de ONGs e
ambientalistas propõem que cada pessoa faça sua parte, como deixar o
carro na garagem alguns dias por semana. São atitudes louváveis, mas
de pouco efeito prático. "São necessárias grandes estratégias e
investimentos pesados para transformar o modo como o mundo viveu nos
últimos vinte anos", define o americano John Reilly, do MIT. Por
isso, frear o ritmo do aquecimento global exige o envolvimento de
governos. Não é o caso de pôr todos eles a negociar, como ocorreu em
Kioto, e convencê-los de que é hora de ajudar o planeta. Haveria
tantos interesses divergentes que um consenso seria praticamente
impossível. "Na realidade, para resolver o problema do efeito estufa
bastaria um acordo entre as dez ou vinte maiores economias", diz
David Keith, presidente do Conselho de Energia e Meio Ambiente do
Canadá. Trata-se dos maiores poluidores e também são países que têm
tecnologia e dinheiro para mudar o padrão energético.
OS MAUS TRIPULANTES
Os seres humanos se adaptaram aos
novos ambientes – essa é a chave do sucesso evolutivo da espécie.
Mas um mundo mais quente pode ser cheio de surpresas – a maioria
delas desagradável. Há quatro anos, os canadenses precisaram se
acostumar com a visão de urubus no verão, um fenômeno inédito. Esses
pássaros preferem as regiões mais quentes e nunca eram vistos em
latitudes tão altas. No Brasil, uma elevação de apenas 1 grau
reduziria a área propícia para o cultivo do café em 32%. Se o
aumento do calor for de 3 graus, a redução será de 58%. "Em dias com
mais de 34 graus, as flores do café abortam os grãos e a
produtividade cai drasticamente", diz Hilton Silveira Pinto,
pesquisador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). "Eu não
ficaria surpreso se tivéssemos de importar café da Argentina." Com
um aumento de 3 graus, haverá uma redução de 20% na produção de
arroz; na de feijão, de 11%; e na de milho, de 7%. A temperatura
mais alta pode tornar o Sul e o Sudeste atrativos para mosquitos que
transmitem doenças hoje típicas da Amazônia e do Centro-Oeste.
Centros de saúde terão de se preparar para atender casos de malária
e de dengue. Em vinte anos, o mar estará 8 centímetros mais alto na
costa brasileira. Essa pequena diferença poderá fazer com que,
quando a maré estiver alta, as ondas invadam o litoral. "Será
preciso construir diques em Parati e no Recife", afirma Afrânio
Mesquita, oceanógrafo da Universidade de São Paulo. "Teremos de
aprender com a Holanda, que tem vastas áreas abaixo do nível do
mar." Adaptar-se ao clima mais quente parece ser viável para a
humanidade. Se é o que nos resta fazer, teremos de fazê-lo. Isso não
nos livrará, porém, da condenação das gerações futuras. Seremos
sempre estigmatizados como os tripulantes que por pouco não
destruíram o único, pálido, frágil e azul oásis de vida na imensidão
do universo.

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OS VERDES CHEGAM A WALL STREET
Image.Net
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O GURU
DA TURMA Gore: palestras para convencer
empresários de que investir em energia limpa é bom
negócio |
Há décadas os
ambientalistas alertam para os riscos da escalada do
aquecimento global, mas seus argumentos raramente foram
ouvidos. Pudera. As soluções apresentadas para acabar
com o efeito estufa passavam por fechar indústrias,
prejudicar economias e sacrificar parte do bem-estar
conquistado pela humanidade ao longo do século XX. Agora
que as conseqüências do aquecimento se abatem sobre
várias regiões do globo e os governos se mobilizam em
torno da questão por meio do Tratado de Kioto, o
ambientalismo começa a conquistar seus mais céticos
opositores: os grandes empresários e investidores. Parte
deles acredita que a produção de energia limpa pode se
transformar num excelente negócio, sem que para isso
seja preciso abrir mão das premissas sagradas do
capitalismo. Esses empresários avaliam que, como diz
John Doerr, um dos grandes investidores do Vale do
Silício, "a revolução verde pode se tornar a grande
oportunidade empresarial do século XXI".
À frente desse
movimento, que vem sendo chamado de nova revolução
verde, está o ex-vice-presidente americano Al Gore.
Afastado dos cargos públicos desde que perdeu a disputa
pela Casa Branca para George W. Bush, em 2000, Gore se
transformou num pregador incansável em favor da salvação
do planeta por meio de investimentos em novas
tecnologias e modelos de negócios. Nos últimos anos, ele
já fez mais de 1 000 palestras em empresas e
universidades, discursando sobre as conseqüências das
mudanças climáticas e o que pode ser feito para
combatê-las. Há três semanas, estreou nos cinemas
americanos o documentário Aquecimento Global, uma
Verdade Inconveniente, que tem Gore como
protagonista e é amplamente baseado em suas palestras. A
fita tem ajudado a imprimir a Gore uma certa aura de
astro e guru. Ao comparecer à apresentação do filme em
Cannes, no mês passado, ele atraiu mais atenção do que
celebridades como Penélope Cruz e Tom Hanks.
Para provar que investir
no verde pode ser um bom negócio, há dois anos Gore
abriu com outros sócios a empresa Generation Investment
Management, um fundo que administra 200 milhões de
dólares aplicados em produção de energia sustentável.
Também em sociedade com investidores, comprou por 70
milhões de dólares um canal de TV a cabo destinado a
divulgar causas ecológicas. Negócios como esses seriam
impensáveis até poucos anos atrás, quando a imagem que
Wall Street tinha dos ambientalistas era a de um bando
de chatos usando sandálias e rabo-de-cavalo.
Okky de Souza
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Com reportagem de Duda
Teixeira, Gabriela Carelli, Leoleli Camargo, Rafael Corrêa, Ruth
Costas e Thomas Favaro
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